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Vergonha: a dor que nos acompanha em silêncio

Autores: Marco Aurélio Mendes e Andrea Caroli


As emoções possuem um potencial adaptativo inato e tendências para ação, funcionando como um guia que informa se nossas necessidades, estão sendo atendidas. Em função da memória, as emoções nos falam também sobre acontecimentos passados bem como organizam expectativas futuras.   Como sujeitos inerentemente relacionais, algumas emoções podem ser extremamente dolorosas e ter grande impacto em nossas vidas, como, por exemplo, a vergonha.

A vergonha é considerada  uma emoção intrinsecamente social e relacional, influenciando a forma como nos sentimos e nos comportamos em relação ao outro. Diante do não atendimento satisfatório das necessidades humanas fundamentais, como sentir-se seguro, pertencente, aceito, a vergonha surge como uma emoção interna extremamente dolorosa, um sentir-se indigno, insuficiente, defectivo, não-aceito, podendo resultar em um senso de rejeição social e desconexão afetiva.

A vergonha possui suas variações. Como uma emoção primária adaptativa, ela nos informa se estamos excessivamente expostos ou não, se estamos sendo invalidados, humilhados ou ainda se temos a nossa identidade ameaçada. Sinaliza também se estamos agindo de forma inadequada violando importantes padrões morais ou sociais, correndo o risco de sermos julgados e rejeitados por outros. "A vergonha é a experiência mais perturbadora que as pessoas já tiveram sobre si mesmas; nenhuma outra emoção parece mais perturbadora porque no momento da vergonha o eu se sente ferido por dentro" como refere Kaufman (1996). A tendência para ação presente na emoção da vergonha é se esconder e assim respostas automáticas aparecem como a evasão, esquiva e a defesa a fim de proteger a posição social e a manutenção da conexão relacional.

A vergonha primária desadaptativa decorre de histórias de experiências recorrentes sentidas pelo self como humilhantes, sensação de inutilidade, inferioridade, defectividade e ausência de validação e afeto. Sendo uma emoção bastante complexa, destrutiva, crônica, sentida no âmago, a vergonha desadaptativa feta o senso de si mesmo e a capacidade de se conectar e interagir com terceiros. Para Brown (2012), a vergonha é “o sentimento intensamente doloroso ou experiência de acreditar que somos defeituosos e, portanto, indignos de amor e aceitação.” Nesse sentido, as respostas a essa emoção tão dolorosa não são funcionais, causando sofrimento e impactos significativos na vida do sujeito.

Diferentemente das emoções primárias que são respostas automáticas, as emoções secundárias são uma espécie de reação ou defesa à uma emoção primária. A vergonha secundária, por exemplo, pode funcionar como um disfarce para outras experiências emocionais, diferenciando-se da vergonha primária onde o self é uma falha. Podemos sentir vergonha por  experienciar vergonha, por ter sentido raiva, tristeza ou medo. No entanto, essa “reação à reação”, ou seja, emoção sobre sentir outra emoção,  obscurece a emoção original e não leva a ações adequadas e produtivas.

Para Greenberg (1997), “a vergonha adaptativa primária precisa ser respondida, para então acessarmos suas informações positivas. Por sua vez, ela precisa ser discriminada da vergonha primária desadaptativa, que precisa ser transformada, e da vergonha secundária, que precisa ser explorada.”.

Mendes & Bruno (2019), ressaltam a importância da qualidade da relação terapêutica para o trabalho bem-sucedido com a vergonha. Em função do seu caráter extremamente doloroso, o cliente pode se sentir extremamente fragilizado e vulnerável. Só é possível chegar neste lugar, se nos sentimos validados e seguros por alguém, se podemos nos expor a ferida em carne viva, tendo o suporte de alguém que compreende, sente e empatiza com a nossa dor. No trabalho de mudar uma emoção com outras emoções, que é o objetivo do trabalho da Terapia Focada nas Emoções, Mendes & Bruno (2019) ressaltam que é importante que o cliente entre em contato com o que lhe faltou, para então reagir à isto com outras emoções e assim transformar as emoções desadaptativas.

 

Em resumo, a vergonha é uma emoção oculta, não dita, um sofrimento sentido em silêncio. São os silêncios que gritam. Através do processo de validação empática da experiência do sujeito, a vergonha pode ser acessada, vista, ouvida e aceita, promovendo-se assim uma transformação, uma mudança emocional. Este processo é muitas vezes longo e difícil mas, como afirma Greenberg (2019)  "Você tem que sentir suas emoções dolorosas para curá-las."

 

Bibliografia:

>Brown, B. (2012) A coragem de ser imperfeito. Tradução de Joel Macedo. Rio de Janeiro: Sextante.

>Greenberg, L. S. & Paivio, S. (1997). Varieties of Shame Experience in Psychotherapy. Gestalt Review.

>Greenberg, L. S. Emotion-focused therapy: Theories of psychotherapy series. Washington, DC.  American Psychological Assiciation.

>Greenberg, Leslie S., Goldman, R. N. (2019). Clinical Handbook of Emotion-Focused Therapy. Apple Books. verso eletrônica

>Kaufman, G. (1996). The psychology of shame: theory and treatment of shame-based syndromes. Springer Publishing Company.

>Mendes, M. A. & Bruno, M. (2019). Terapia Focada nas Emoções. In: W. B. Melo. A prática das intervenções psicoterápicas: como se trata pacientes da vida real (pp. 277-302). Novo Hamburgo: Synopsis.



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